...e o que você fez?

26 de dez de 2008

Pois é, Natal. Enfim natal. Sei lá, pode ser que seja o cheiro do ano novo, as promessas não cumpridas, os planos desfeitos, as vontades reprimidas, mas estou num estado não tão interessante e olha que quando eu falo em estado não estou falando geograficamente. Bom, a verdade é que são 22:34 da noite de natal e eu estou no meu quarto digitando esse texto que só irei postar somente na sexta-feira. Eu não tinha plano, não tinha mesmo, só imaginei que meu natal seria um tiquinho mais animado. Nunca imaginei que a primeira retrospectiva 2008 que veria seria a minha. De ontem para cá já pensei em tudo que me aconteceu e o que poderia ter acontecido nesse ano. Me dá um nó no peito, um nó seco, um nó rancoroso. Definitivamente um sentimento que eu não gostaria de tê-lo. Esse nó tem nome, esse nó tem uma história. Meu pai.

Estou prometendo para myself publicar esse post. Sei que amanhã [hoje quando eu for postar] esse sentimento vai ser inundado pelo sol, o sol nos faz ser mais racionais, o sol é uma maquiagem perfeita para a tristeza. A noite não, a noite aflora tudo que somos, tudo que queremos e não queremos, a noite nos faz escrever coisas que só falamos ou sentimos sob seu luar. Portanto, publicarei esse post que estou escrevendo à noite, amanhã, de dia.

Pois é, prometi a uma amiga que ligaria para meu pai na noite de natal, não consegui. Não consegui imaginar a cena de ligar para ele e o ouvir mandar abaixar o som da festa da nova casa dele, não consegui suportar a idéia de que ele deve ter feito uma enorme festa, com muita comida, muita bebida, muita animação como ele costumava fazer aqui com sua família, enquanto seus filhos e sua ex-esposa se viram como podem, na esperança de que tudo vai melhorar, não graças a ele. Não consigo suportar a idéia de que o filho de sua amante terá brinquedos, presentes. Tirados covardemente do natal de meus irmãos. Eu não suporto a idéia de que meus irmãos estão acostumando com o fato de não terem mais um pai. Porra, eu tive um pai, eu amei uma pessoa que um dia me apunhalou, aliás, muito pior, apunhalou minha mãe e meus irmãos, todos mais novos, todos indefesos, carentes. Me dói do fundo coração saber que meus irmãos não terão a figura paterna. Me dói mais, muito mais ver o quanto ele não liga, o quanto ele não se importa. Ver que ele não faz a mínima questão de tentar uma aproximação, de nunca ter chegado e dito “desculpe, eu errei”, tudo que eu vejo é prepotência e arrogância, mentira e falta de caráter.

[...]

Não consigo aceitar o fato de ter amado uma barra de concreto, olhar fotografias antigas e imaginar que por detrás daquele semblante de felicidade se escondia tanta tristeza e insensibilidade. Porque só isso explica o fato dele se desligar tão facilmente de sua família de 22 anos, 22 fucking anos.

Eu ia escrevendo que talvez um dia eu o perdoe, mas percebi que já o perdoei. Perdoei ele ter traído minha mãe, de ter pedido uma segunda chance e ter nos enganado de forma mais mesquinha ainda, perdoei ele ter saído de casa sem nenhuma dor na consciência, perdoei todas suas mentiras, Deus sabe por quanto tempo. Mas fica a dor, o rancor, a mágoa. Isso eu não tiro com palavras, isso o tempo tira, ou não. Eu particularmente preferia não tê-los, preferia a opção de ligar para ele ontem e dizer “feliz natal”, sem nó seco na garganta. Preferia que ele tivesse sido honesto conosco e consigo mesmo. Enfim, no mundo imaginário do “eu prefiro”, escolheria a opção ser feliz.

1 comentários:

Cláudio disse...

Nossas histórias são um tanto parecidas. O ódio, a mágoa está presente, ainda que causados por motivos distintos. Entendo você completamente. É triste, é doloroso, e certamente somos vítimas de uma situação sequer imaginada - muito menos criada ou contribuída por nós. Mas, se você tem um limão, esprema e misture com mel; se tem dois, faça um suco; se tem dez, faça uma torta. A vida, infelizmente, não é como prevemos, como imaginamos... como queremos! Mas, bem diz a musa absoluta do nosso amado axé: 'Pra mim não me adianta nada um futuro previsto. Eu acho feio; acho fuleiro, sacou?! Eu acho que as surpresas é que fazem a gente viver com mais alegrias e tal'. Enfim! Apesar de todos os tropeços e dificuldades, a gente não deve se queixar. Somos seres diferenciados, que foram tocados prematuramente pela dor e que, certamente, saberão julgar e soperar melhor as pessoas, fatos e atos. E assim a gente segue. Hoje a gente se ressente; num futuro, não tão distante, a gente ri. Quando as coisas ficam distantes, ficam menores - como uma imagem. E aí tudo é fácil, tudo é simples. "Deixa pra lá" é o conselho sempre mais adequado.